capítulo cinco: o Nordeste de Amaralina

31/10/2024

Hoje o encontro deveria ter sido em campo, mas devido a instabilidades na região, fomos para a UFBA e a temática escolhida foi a territorialização e a pesquisa a respeito do território que iremos estar nas próximas semanas.  Acredito que foi bastante significativo em um dia como hoje, que todas as manchetes sensacionalistas estão voltadas para a violência no Nordeste de Amaralina, descobrir tantas coisas incríveis sobre esse local. 

De início, o processo de territorialização foi explorado a partir de alguns materiais que trataram da importância do reconhecimento do território e do diagnóstico de sua comunidade, a partir tanto de coleta e análise de dados, quanto de observação do espaço. Esse processo contínuo e coletivo tem como objetivo reunir aspectos epidemiológicos, demográficos, situacionais, ambientais, socioeconômicos e políticos em prol de se ter um panorama territorial que abarque suas particularidades e necessidades, principalmente pensando na assistência da saúde. 

A origem do bairro do Nordeste de Amaralina está ligada à comunidade de pescadores do Rio Vermelho, constituída no início do século XIX. No início do século XX, quando o Rio Vermelho começa a ser cobiçado pela burguesia, os pescadores são obrigados a construir suas casas nos arredores, ou seja, em Amaralina. Dessa forma, pescadores e suas famílias instalam-se no alto da colina do Nordeste de Amaralina, em frente à praia. Na época, as terras pertenciam a diversos grandes proprietários, entre eles a família Amaral. Daí, com o passar dos anos, a Fazenda Amaral tornou-se Amaralina. As áreas dessa antiga fazenda foram sendo pouco a pouco revendidas em lotes de baixo custo, ou invadidas de forma ilegal, constituindo o início da urbanização desse bairro de invasão forçada. Por esse contexto já se percebe que desde o início da história do bairro havia um caráter de resistência ao descaso social e político, nesse caso da comunidade de pescadores expulsa de suas próprias casas para atender à elite local. 

Sendo formado pelos bairros da Santa Cruz, Chapada do Rio Vermelho, Vale das Pedrinhas e o próprio Nordeste, o conjunto do Nordeste de Amaralina pode ser relacionado ao conceito de Zonas de Sacrifício - área geográfica que foi permanentemente prejudicada por danos ambientais ou desinvestimento econômico -, uma vez que até 1960 esse complexo não dispunha de nenhum tipo de serviço urbano, mesmo com as suas dimensões, densidade populacional - mais de 20 mil habitantes - e a existência de uma orla marítima que inspira artistas de todo o Brasil - como na música Nas Águas de Amaralina, de Martinho da Vila -. O Nordeste de Amaralina é um retrato da contradição gerada pela desigualdade social por negligência política, pois possui toda a sua vizinhança dotada de equipamentos e infraestrutura, enquanto seus aparatos urbanos chegaram com atraso e sem a plena e efetiva cobertura. 

Mas apesar de todo esse retrato de injustiças sociais, o Nordeste se destaca também no esporte, lazer, cultura e entretenimento. Um projeto que evidencia esse reconhecimento é o Quabales, que contempla aulas e ações para os moradores da localidade. Além disso, o Nordeste de Amaralina é profundamente influenciado pela cultura afro-brasileira, reflexo da história e da ancestralidade do povo que o habita - tendo uma maioria de pessoas que se identificam como negras, segundo o Observatório dos Bairros de Salvador -. Essa influência pode ser vista em manifestações como o candomblé, a capoeira e o samba de roda, sendo evidenciados pela quantidade elevada de terreiros no território, escolas de samba e figuras ilustres na capoeira como Mestre Bimba, que inclusive dá nome ao circuito de carnaval próprio do Nordeste.

Apesar de enfrentar desafios relacionados à violência e à desigualdade social, o Nordeste de Amaralina é um exemplo de força e união,  já que a solidariedade entre os moradores é evidente em projetos sociais, cooperativas e iniciativas culturais que buscam oferecer oportunidades para os jovens e fortalecer a autoestima da comunidade, a exemplo do NORDESTeuSOU, uma revista eletrônica que eu amei conhecer e acompanhar e que tem o objetivo de mudar a visão negativa do bairro. 

Diante de vários líderes comunitários que foram mostrados no decorrer da discussão, confesso que Aline Silva logo chamou a minha intenção por sua história. Aline é moradora do Nordeste de Amaralina desde o dia que nasceu e hoje é respeitada nos quatro cantos do bairro. Essa líder comunitária tinha um temperamento forte quando mais nova e se considerava brigadora de rua, mas a sua performance chamou à atenção do amigo Luciano, que perguntou a Aline se ela não tinha interesse em participar do treino de boxe na academia Novo Astral e, posteriormente, de fazer parte da equipe de competição de boxe. Aline Silva, que foi campeã baiana e brasileira de boxe, continuou ligada ao esporte dando aulas gratuitas para a comunidade e cada vez mais engajada à causa dos moradores do bairro, expandindo seu raio de atuação para além do esporte, atuando, inclusive, no NORDESTeuSOU. 

Essa realidade nos faz refletir sobre a força das comunidades marginalizadas e o quanto a cultura pode ser um instrumento poderoso de resistência, transformação e dignidade. Mais do que apenas um local geográfico, o Nordeste de Amaralina é um símbolo da resiliência desde a sua origem desamparada politicamente, mas que floresce em meio às dificuldades.

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